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Doutorado FEM/UNICAMP

A escolha por carros elétricos na ponta do lápis

Carros elétricos ainda soam enigmáticos para consumidores, aponta tese de doutorado da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp sobre mobilidade elétrica e geração solar

Carros elétricos ainda parecem um mistério para os consumidores — se não os veículos em si, ao menos os diversos fatores que influenciam a escolha. Primeiro vem o preço, mas entram também na conta os custos de manutenção, o valor de revenda e, provavelmente, a principal dúvida: trocar os postos de combustível por eletropostos ou pela tomada da garagem é uma opção mais econômica?

A conclusão de uma pesquisa de doutorado feita na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp, em parceria com o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, é que, em muitos casos, vale a pena trocar os veículos a combustão pelos elétricos. Alguns contextos mostram-se mais vantajosos que outros, principalmente quando o proprietário tem condições de fazer as recargas em casa, aproveitando os benefícios da microgeração distribuída de energia solar fotovoltaica, ou seja, quando o próprio consumidor gera sua energia elétrica por meio de painéis solares. Para avaliar os diferentes cenários, Nathalia Hidalgo Leite, autora do estudo, desenvolveu modelos matemáticos para calcular a interferência dos diversos fatores, tanto no custo da propriedade dos veículos quanto na geração de energia elétrica. A tese contou com a orientação dos professores Luiz Carlos Pereira da Silva, diretor do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn) da Unicamp, e Hugo Gabriel Valente Morais, da Universidade de Lisboa, e coorientação de Cindy Paola Guzman Lascano, do Instituto de Engenharia de Sistemas de Computadores (INESC-ID), de Lisboa.

Quanto custa?

O estudo relaciona duas análises distintas, mas que se complementam: a viabilidade dos sistemas solares fotovoltaicos, considerando diferentes regras de compensação de crédito para os consumidores, e a atratividade dos veículos elétricos em relação aos movidos a combustão, por meio do cálculo do custo total de propriedade (TCO, do inglês “total cost of ownership”). Os modelos também levaram em conta as possíveis variações econômicas e de subsídios para os setores. A conclusão é que mesmo com uma compensação menor aos consumidores pela energia fotovoltaica gerada, o TCO dos veículos elétricos sofre pouca variação, entre uma redução de 1,8% a um aumento de 6,3% em seu custo de propriedade.

Até 2023, os consumidores que geravam energia fotovoltaica recebiam 100% de compensação. Com a lei 14.300/2022, foi estabelecido que o valor compensado seria reduzido progressivamente, fazendo com que o retorno financeiro do investimento caísse 5,77% em média. “O que mudou foi o período de payback, o tempo de retorno do investimento se alongou. Porém, é algo que continua sendo viável”, explica a engenheira. Segundo Leite, as mudanças recentes no setor elétrico não devem impactar no longo prazo a opção pelos elétricos. De acordo com a pesquisa, outros fatores influenciam mais no cálculo do TCO no Brasil. “A maioria dos veículos a combustão hoje no Brasil é flex, sendo possível abastecê-los também com etanol. Isso foi levado em conta nos modelos matemáticos”, detalha.

Levando em consideração quatro categorias de veículos — de entrada, compactos, médios e de luxo — e as regras diversas de compensação, a pesquisadora traçou 23 cenários em que compara o TCO de elétricos e a combustão. Em 12 deles houve empate, em dois o custo dos elétricos foi maior, e em nove cenários os veículos a combustão tiveram maior TCO. Entre os diferentes fatores, o que mais impacta no cálculo de TCO dos elétricos é o valor inicial dos veículos, sobretudo nos compactos.

Leite destaca aspectos próprios do contexto brasileiro que devem ser considerados em estudos desse tipo e que mostram o quanto as condições de recarga de energia interferem no custo. Um deles é o número ainda reduzido de estações para recarregamento no país. A ABVE contabiliza 16,8 mil eletropostos, uma relação de 20,9 veículos para cada posto. “Com a demanda crescente de pessoas comprando elétricos e híbridos, o preço [da energia] nas estações de recarga tende a ser mais alto.” Outro fator é cultural: segundo a pesquisadora, estudos na área mostram que poucos donos de veículos híbridos plug-in — que permitem abastecimento de combustível e recarga — têm o hábito de recarregá-los. “Na maior parte do tempo, eles estão carregando um peso a mais das baterias e gastando mais combustível por isso. Aí não há eficiência”, comenta.

Políticas para o setor

Outro aspecto destacado na pesquisa e que fomenta novos estudos acerca dos elementos que impulsionam a transição energética é que os fatores intrínsecos aos veículos elétricos e à geração de energia fotovoltaica não podem ser dissociados das políticas públicas para o setor. Na visão de Leite, hoje o Brasil tem apenas políticas gerais para a eficiência dos veículos. Ela cita o exemplo das regras de isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), que não seguem uma diretriz nacional. “Vários estados oferecem algum tipo de benefício fiscal, mas o cenário está longe de ser uniforme no país.”

A pesquisadora acredita que é necessário ao país priorizar a descarbonização da matriz energética e, a partir disso, traçar políticas que incluam os veículos elétricos e outros recursos e estratégias, como a adoção da eletromobilidade nos transportes públicos. “Começar por ônibus e outros modais elétricos seria uma boa opção para ampliar os resultados do país em direção à transição energética.”

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