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Pesquisa

Entre presença e ausência: tese na FE propõe novo olhar sobre a participação de pessoas autistas na universidade

Pesquisa de Dr. Guilherme de Almeida articula justiça neurocognitiva, autoria histórico-criativa e um sistema inédito de avaliação institucional.

A universidade pública brasileira garante matrícula, mas não garante autoria.” A frase, que sintetiza o argumento central da tese de Guilherme de Almeida, aponta para um problema que não aparece imediatamente nas estatísticas de acesso, mas se revela no percurso acadêmico de muitos estudantes.

Defendida no dia 16 de abril de 2026, na Faculdade de Educação da Unicamp, a tese intitulada Presença/Ausência de Pessoas Autistas no Ensino Superior Público: justiça neurocognitiva e autoria histórico-criativa como práxis emancipadora investiga como a universidade, mesmo após avanços no campo dos direitos, ainda opera com padrões que dificultam a permanência e a produção de conhecimento por pessoas autistas.

A pesquisa, vinculada ao Grupo de Estudos e de Pesquisas em Filosofia e Educação PAIDEIA e desenvolvida com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), foi orientada pela professora Sandra Fernandes Leite e contou com banca composta pelo professor César Nunes (FE-Unicamp), pela professora Francisca Geny Lustosa (UFC), pela professora Rita Cossio (UFPel) e pela professora Vanessa Dias Bueno de Castro (FE-Unicamp).

Presença não é sinônimo de permanência

O ponto de partida da tese é uma constatação simples, mas pouco enfrentada: estar na universidade não significa, necessariamente, conseguir existir nela em condições de igualdade.

A universidade brasileira foi desenhada para um padrão cognitivo específico — aulas expositivas longas, avaliações padronizadas, socialização como critério implícito de pertencimento. Nada disso é neutro”, afirma Guilherme. “É uma arquitetura institucional que funciona bem para quem processa informação de determinada forma e penaliza, silenciosamente, quem não o faz”.

Os dados ajudam a dimensionar essa assimetria. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, o equivalente a 1,2% da população. No ensino superior, no entanto, esse grupo representa apenas 0,8% dos estudantes — assimetria que, segundo Almeida, decorre não de barreiras de acesso, mas das condições de permanência e progressão acadêmica. 

Para o pesquisador, o problema não se resolve apenas com políticas de acesso. “Reconhece-se o direito; não se transformam as condições que o tornariam efetivo”, resume.

Justiça neurocognitiva

Um dos eixos centrais da tese é a noção de justiça neurocognitiva, que orienta tanto o diagnóstico quanto às propostas do trabalho. Por justiça neurocognitiva, Almeida designa o reconhecimento de que diferentes formas de processar e produzir conhecimento exigem condições institucionais distintas, não meras adaptações pontuais sobre uma estrutura única.

Da acessibilidade à autoria

Outro deslocamento conceitual importante está na distinção entre acessibilidade e autoria — reformulada, após a defesa, como autoria histórico-criativa. “Acessibilidade diz respeito às condições do ambiente. Autoria é o momento em que o estudante deixa de ser objeto de políticas e passa a produzir conhecimento a partir de quem é”, explica o pesquisador.

Na prática, o que predomina nas universidades são adaptações pontuais: tempo extra em provas, flexibilizações individuais, soluções negociadas caso a caso. Embora necessárias, essas medidas não alteram a estrutura que produz as barreiras.

“Isso gera um efeito acumulativo de desgaste. O estudante precisa continuamente justificar sua presença, solicitar condições mínimas, negociar sua permanência”, afirma. “Ao final do percurso, o custo não é apenas acadêmico — é também subjetivo.”Na sua própria trajetória, diz ele, o acesso formal nunca foi o principal obstáculo. “Mas as condições para produzir conhecimento como pessoa autista precisaram ser construídas artesanalmente. Isso não pode depender de encontros individuais bem-sucedidos. Precisa se tornar política institucional.”

Uma imagem panorâmica e de dupla exposição que ilustra a colaboração. Em primeiro plano, mãos seguram e conectam grandes peças de quebra-cabeça em cores vivas e transparentes: verde, amarela, azul e vermelha. Sobrepostas a essa cena, de forma suave, vêem-se as silhuetas de uma equipe em um ambiente de escritório moderno, sentada ao redor de uma mesa de reunião, focada na resolução de um problema. A imagem simboliza a integração de diferentes áreas e talentos para o sucesso de um projeto.

Um sistema para avaliar a instituição

A dimensão propositiva da tese se materializa no Sistema de Avaliação Ecológica Dinâmico (SAED). O ponto de partida é inverter a lógica dominante: em vez de avaliar o estudante, examinará a universidade. “O problema é conhecido de quem trabalha com inclusão: os instrumentos disponíveis medem o que o estudante não consegue fazer, mas não identificam o que a instituição deixa de oferecer”, diz.

O SAED combina três ferramentas — uma matriz de análise institucional, um protocolo de estudo de caso e um mapa de articulação entre setores — que operam de forma integrada. A ideia é produzir um diagnóstico contínuo, capaz de orientar intervenções concretas.

A Matriz cruza o que a universidade declara, o que seus dados mostram e o que os estudantes vivenciam. A partir disso, é possível medir a distância entre discurso e prática”, explica Almeida. O objetivo é que cada atendimento individual contribua para mudanças mais amplas: “sair da adaptação caso a caso e construir transformação institucional cumulativa”.

Uma cadeia de barreiras

Para explanar por que adaptações isoladas não resolvem o problema, a tese propõe a ideia de “cascata de desmobilização”. Trata-se de um encadeamento de obstáculos — da sala de aula às políticas institucionais — que, somados, levam ao afastamento intelectual do estudante.

“Cada barreira, isoladamente, pode parecer tolerável. O problema é o efeito conjunto”, afirma o pesquisador. “É essa cadeia que explica por que o acesso não se converte em permanência com qualidade, nem em produção de conhecimento.” 

A implicação é direta: não basta intervir em um ponto específico. É necessário agir simultaneamente sobre currículo, avaliação, formação docente, infraestrutura e gestão.

Tecnologia e mediação

A tese também discute o papel da inteligência artificial em dois planos distintos. De um lado, como ferramenta de análise institucional, capaz de identificar inconsistências entre o que a universidade afirma e o que efetivamente pratica. De outro, como recurso de apoio à autonomia dos estudantes.

Quando usada como mediação, a tecnologia pode ampliar a comunicação e a produção de conhecimento”, afirma Almeida. “Mas há um princípio que não pode ser violado: ela deve operar a serviço do sujeito, jamais em seu lugar.”

Para além da tese

A pesquisa de Guilherme de Almeida se articula a uma agenda mais ampla de circulação do conhecimento. Parte dos conceitos desenvolvidos já está sendo traduzida em livros voltados a diferentes públicos, que tratam desde a vida adulta no espectro autista até práticas pedagógicas na educação básica.

No campo das políticas públicas, o trabalho também se desdobra por meio da presidência do autor na Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil), organização de advocacy autista que atua em litigância estratégica e em frentes legislativas sobre educação inclusiva e direitos de pessoas autistas.

Entre as etapas em construção, está a aplicação piloto do SAED em diálogo com o Stanford Neurodiversity Project (PNS). A escolha da parceria não é incidental: o PNS é um espaço de pesquisa sobre e com pessoas autistas, cuja constituição já parte da pluralidade neurocognitiva como condição de funcionamento, não como exceção a ser acomodada.

Para o autor, isso permite testar o SAED a partir de um ambiente que encarna a inversão metodológica proposta pelo instrumento: uma institucionalidade pensada desde dentro da experiência autista, e não como adaptação posterior a um padrão que a exclui. Em paralelo, está em curso a articulação para uma aplicação piloto também em universidade pública brasileira, etapa que Almeida considera incontornável: “O SAED foi pensado a partir da universidade pública brasileira e para ela. A parceria internacional importa pelo modelo institucional que oferece, mas o teste decisivo precisa acontecer aqui”.

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